segunda-feira, 29 de março de 2010

Há 42 anos Edson Luís era assassinado pela ditadura


1968, restaurante estudantil Calabouço


Em 28 de março de 1968 a ditadura militar assassinava o estudante secundarista Edson Luís de Lima Souto, paraense de 18 anos, no restaurante estudantil Calabouço, no Rio de Janeiro. O episódio marcou a resistência estudantil contra o regime militar que iria se aprofundar naquele ano até o decreto do AI-5, que endureceu ainda mais a repressão

Edson Luís de Lima Souto nasceu em Belém do Pará em 1950. Filho de uma lavadeira, mudou-se para o Rio de Janeiro para fazer o Segundo Grau supletivo no Instituto Cooperativo de Ensino. Como muitos, pensava em seguir os estudos para engenharia e melhorar a vida da família.
O Instituto Cooperativo de Ensino situava-se em um anexo do restaurante Calabouço e era chamado pelos militares de "Instituto Comunista de Ensino". Ali estudavam jovens mais pobres, como o próprio Edson, que se alimentavam no restaurante, com preços mais baixos, sendo que muitos trabalhavam também no local.
No restaurante também se situava a União Metropolitana de Estudantes (UME).
O restaurante era palco de protestos contra a má qualidade da refeição servida pelo governo e pela conclusão das obras do local, por isso o Calabouço era visto pelo regime militar como um foco de agitação estudantil. Quem liderava os protestos era a Frente Unida dos Estudantes do Calabouço (Fuec). Não demorou muito para se tornar o local de organização de manifestações contra a ditadura.
 
Calabouço
 
O Restaurante Central dos Estudantes foi inaugurado em 1951, como parte da política populista de Getúlio Vargas. O restaurante oferecia comida a baixo custo para estudantes de baixa renda no Rio de Janeiro.
Em 1951, o restaurante foi inaugurado na antiga sede da UNE, na Praia do Flamengo, mas no ano seguinte foi transferido para a Avenida Infante Dom Henrique. O apelido Calabouço foi dado, pois corria a história de que o local havia sido uma prisão de escravos. Nessa época, o restaurante pertencia ao Ministério da Educação, mas era administrado pela União Metropolitana dos Estudantes (UME).
Com o Golpe Militar de 1964, o restaurante foi fechado por três meses e reabriu sob o controle dos militares. Em 1967, o governo do Estado da Guanabara, sob pretexto de uma urbanização da região, anuncia a demolição do Calabouço, o que gerou batalhas entre a polícia e os estudantes. Foi então proposto pelo governador que o restaurante fosse reconstruído em outro local. Contudo, a demolição acabou acontecendo sem que o novo estivesse pronto. Em protesto a isso, os estudantes organizaram três meses de "pendura" em famosos restaurantes do Rio de Janeiro, até que fosse anunciada a abertura do calabouço. O restaurante foi entregue sem que tivessem terminado as reformas, o que deixava o local com péssimas condições de higiene. Foram as manifestações pelo término das reformas e pela melhor qualidade da comida que geraram os protestos que resultariam na morte de Edson Luís. Depois da invasão, a PM destruiu o Calabouço e o restaurante foi fechado definitivamente.
 
À queima roupa
 
No dia 28 de março, os estudantes estavam organizando uma passeata relâmpago para protestar contra o alto preço da comida servida no Calabouço. A Polícia Militar, que outras vezes já havia reprimido os estudantes no local, chegou ao restaurante. A primeira investida da polícia conseguiu dispersar os cerca de 600 manifestantes, que se abrigaram dentro do Calabouço. Porém, os estudantes reagiram com paus e pedras, o que fez a polícia recuar.
Os policiais voltaram com maior violência, dessa vez atirando contra os estudantes e invadiram o restaurante. Na invasão cinco estudantes ficaram feridos e dois foram mortos pela polícia. Um foi Benedito Frazão Dutra, que morreu no hospital, o outro foi Edson, que levou um tiro covarde no peito à queima-roupa de uma arma calibre 45.
Os companheiros de Edson não permitiram que a PM levasse o corpo do estudante com medo de que sumisse com ele. Os estudantes, então, partiram em passeata até a Assembléia Legislativa do Rio de Janeiro, onde foi velado o corpo. O velório foi cercado pela PM e agentes do DOPS que provocavam os manifestantes com bombas de gás.
No dia do enterro, 50 mil pessoas saíram às ruas para protestar contra a repressão do regime militar. A palavra de ordem que se espalhou em faixas, cartazes e na boca dos manifestantes era "Mataram um estudante. Podia ser seu filho!". Os militares, sem condições de reprimir a manifestação, tentaram escondê-la. As luzes da cidade não foram acesas naquele fim de tarde, mas mesmo assim os motoristas acendiam os faróis dos carros, comerciantes davam velas e lanternas para a população continuar o cortejo.
A camisa manchada com o sangue de Edson tornou-se o símbolo da repressão e foi carregada pelos estudantes.
Na semana que separou o enterro da missa de sétimo dia de Edson, manifestações foram organizadas em todo o país. Em São Paulo, quatro mil estudantes fizeram uma manifestação na Faculdade de Medicina da USP. Em Goiás e no Distrito Federal, estudantes foram baleados em protestos, sendo que dois foram mortos.
Na missa, que aconteceu na manhã do dia 4 de abril na Igreja da Candelária, as pessoas que lotaram a igreja foram reprimidas com violência pela cavalaria da polícia com golpes de sabre quando saíam. Dezenas de pessoas ficaram feridas. Outra missa estava marcada para o mesmo dia à noite. O governo proibiu sua realização, mas mesmo assim insistiu-se em fazê-la pelo vigário-geral do Rio de Janeiro, D. Castro Pinto.
A celebração reuniu cerca de 600 pessoas e dessa vez a Polícia Militar preparara uma repressão ainda pior. Do lado de fora da igreja havia três fileiras de soldados a cavalo com os sabres prontos para serem usados, um Corpo de Fuzileiros Navais mais atrás e vários agentes do DOPS. Os padres pediram para que ninguém saísse da igreja, já que todos previam um novo massacre. Os clérigos, então, saíram na frente de mãos dadas e fizeram um corredor entre os policiais e os que saíam da igreja, para que não fossem atacados pela polícia. A medida evitou o massacre ali, mas a Polícia Militar esperou que todos os manifestantes saíssem para que fossem encurralados nas ruas da Candelária. Novamente foram dezenas de pessoas feridas.
A morte de Edson Luís foi um dos  marcos da radicalização da luta contra os militares que tomou conta do ano de 1968. Em junho, ocorreu a passeata dos cem mil no Rio de Janeiro, que lotou o centro da cidade.
As mobilizações contra o regime militar foram tomando proporções cada vez mais radicais, assim como a repressão foi se intensificando. Até que, em 13 de dezembro, foi decretado o Ato Institucional n5 (AI-5), endurecendo o regime, como única maneira de controlar a situação.
O ano de 1968 foi revolucionário no mundo todo, marcado pelas revoltas estudantis e da luta contra a ditadura apoiada pelos EUA no Brasil e nos outros países da América Latina. As burguesias latino-americanas, financiadas pelo imperialismo, lançaram mão de ditaduras com características fascistas para reprimir e esmagar as mobilizações estudantis e operárias que se multiplicavam. Conseguiram o feito graças também à falta de ação dos partidos comunistas stalinistas que assistiram passivos tanto ao levante popular como aos golpes militares que serviram para esmagar o ímpeto revolucionário das massas latino-americanas.

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