sábado, 16 de janeiro de 2010

Eu, então, por um raiozinho de sol amarelo dançando em minha parede, teria dado todo o mundo.





Fotos by Edinho Irizawa
Eu, então, por um raiozinho de sol amarelo dançando em minha parede, teria dado todo o mundo.
V. Maiakowski



*Fernanda Borges


Eu acredito no recomeço. Isso pode acontecer numa realidade de um em um milhão, mas eu acredito. Eu sei que pode parecer ingênuo demais de minha parte, mas eu não consigo olhar para aquelas caras por detrás das grades e só pensar nas desgraças que eles cometeram. Eu enxergo mudanças, oportunidades, pessoas que podem mudar a partir de uma merda que fez. Tem gente que pode me chamar de sonhadora demais ou maluca em apostar em homicidas, estupradores ou assassinos. Mas de verdade, eu aposto.
Dias atrás circulando pelos corredores do Centro de Detenção e Ressocialização de Londrina (CDRL), eu e o fotógrafo Edinho Irizawa fomos supreendidos por uma estrutura que eu realmente não esperava. Claro que não deve se comparar com a penitenciária de segurança máxima onde Fernandinho Beira Mar está preso lá em Campo Grande (MS), mas para atender a realidade de Londrina parece estar de acordo. É claro, mais uma vez, que a demanda de gente presa sempre supera o espaço das carceragens. Tem vezes que a gente encontra distritos com até o triplo de sua capacidade. Mas essa não é a realidade só de Londrina ou do Norte do Estado. Essa é a realidade do nosso Brasilzão.
Depois de passar por todo "pente fino" de prache antes de entrar, seguimos pelos longos corredores e pelos inúmeros abres e fechas das portas de ferro. Cadeados aqui, cadeados acolá. Imagino o tempo que o agente penitenciário deve levar pra "aprender" a circular lá dentro. O espaço é realmente um labirinto. E a gente só estava lá pra registrar o dia em que alguns presos faziam a prova do Enem para tentar pleitear uma vaga na universidade.
No corredor, um detento limpava o chão. Ao me ver vira imediatamente para a parede, esconde o rosto de mim. Quando passamos por ele na volta, denovo a mesma reação. Cabeça colada no canto da parede, como quem foge de alguma coisa. Humilhação? Não. Sinal de obediência ao sistema. Depois o agente me explicou que a atitude dele força educá-lo e que ele deve agir assim toda vez que houver a presença de visitas na unidade. É o Estado colocando ordem (?) dentro da unidade para que o negócio não vire baderna. Para que aquele preso não resolva me agarrar com aquele cabo de vassoura e ameaçar incitar uma rebelião colocando em risco toda unidade.
Tem gente que faz cara de medo, nojo ou sei-lá o que quando se fala de unidade prisional. Tem gente que teme entrar num lugar desses. Eu não acho o melhor lugar do mundo, mas acho que ali dentro tem gente como a gente. Tem os piores também, mas quem sou eu pra dizer que o cara é pior ou melhor do que eu? Claro que tem gente filha da puta mesmo, assim como aquele que atirou no Bortolotto pelo simples prazer de atirar, mesmo depois com o cara caído no chão agonizando de dor. Mas sinceramente, eu acredito que lá também existem pessoas que fizeram uma merda motivado por imbecilidades, por frações de segundos de um pensamento que não faz parte de sua essência. E esses sim, eu creio que podem mudar.
E foi conversando com o Alexandro que eu confirmei o que sinto. Com 26 anos de idade, hoje, o condenado por 32 anos, cumpre sua pena em regime semi-aberto e todas as noites sai do CDRL pra ir até a faculdade de Psicologia. Sim, ele matou uma pessoa. Ele também roubou e usou uma arma de fogo ilegalmente. Ele fez tudo errado. Ele vinha de uma família pobre e foi se meter em drogas pesadas. Sem ter condições de manter o vício, foi matar pra roubar. Latrocínio, crime hediondo. Há pelo menos seis anos ele não usa droga alguma. Há pelo menos um ano ele tirou 79,88 no Enem e garantiu uma bolsa integral para o curso de Psicologia. R$ 700 por mês que sua  família jamais teria condições de pagar. Mãe doméstica e sem pai, hoje Alexandro sonha em ajudar outros adolescentes envolvidos com drogas por meio da Psicologia. Ele quer fazer da merda que fez um motivo para ensinar aos outros a não repetir o mesmo erro que ele. Eu não estou defendendo ninguém aqui. Estou dizendo apenas que eu acredito, de verdade, na recuperação desses milhares que vivem presos. Nesses milhares que não encontram chance de mudança porque muitas pessoas negaram oportunidade a eles. Ou porque muitas pessoas não tiveram a paciência de esperar pela mudança. Ou simplesmente porque o cara é filha da puta mesmo, merece ser preso, mas ainda assim pode mudar depois de cumprir sua pena. E que não é por isso que ele mereça viver como um animal enjaulado e entulhado em condições subhumanas. Eu simplesmente acredito que quanto mais ele for tratado como gente, mais ele buscará ser alguém "normal", assim como eu ou você.


*Jornalista e editora do Blog Menina de Amaralina

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